Mostrar mensagens com a etiqueta autor português. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta autor português. Mostrar todas as mensagens

2024-11-06

Luísa Ducla Soares

A MINHA CASINHA


Fiz uma casinha 

de chocolate,

tapei-a por cima

com um tomate.


Pus-lhe uma janela

de rebuçado

e mais uma porta

de pão torrado.


Pus-lhe um chupa-chupa

na chaminé;

a fazer de neve,

açúcar pilé.


A minha casinha

bem saborosa…

comi-a ao almoço.

Sou tão gulosa!

           


                Luísa Ducla Soares


2024-05-08

Comemoração dos 500 anos do nascimento de CAMÕES

500 anos do nascimento de CAMÕES

 


     
Não existe um consenso mas ...

            Segundo investigadores de Coimbra,  o dia de nascimento de Luís Vaz de Camões terá sido 23 de Janeiro de 1524.

Para esta conclusão, contribuiu entre outros fatores o estudo de efemérides astronómicas,  verificando que nesse dia se deu um eclipse solar e baseando-se na interpretação do soneto que Camões escreveu:


               " O dia em que nasci moura e pereça,

                 Não o queira jamais o tempo dar;

                 Não torne mais ao mundo, e, se tornar,

                 Eclipse nesse passo o sol padeça.

                    (...)

                 Que este dia deitou ao mundo a vida

                 Mais desgraçada que jamais se viu. "

2024-03-16

Autor do mês de março - Manuel Alegre

 

Imagem: Daniel Reche, Pixabay

Letra para um hino

É possível falar sem um nó na garganta
é possível amar sem que venham proibir
é possível correr sem que seja fugir.
Se tens vontade de cantar não tenhas medo: canta.

É possível andar sem olhar para o chão
é possível viver sem que seja de rastos.
Os teus olhos nasceram para olhar os astros
se te apetece dizer não grita comigo: não.

É possível viver de outro modo. É
possível transformares em arma a tua mão.
É possível o amor. É possível o pão.
É possível viver de pé.

Não te deixes murchar. Não deixes que te domem.
É possível viver sem fingir que se vive.
É possível ser homem.
É possível ser livre livre livre.

                                                Manuel Alegre

2024-03-14

Autor do mês de março - Manuel Alegre

Imagem: Sweetlouise, Pixabay

Coisa Amar


Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como dói

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
    
                                                        Manuel Alegre

2024-03-13

Autor do mês de março - Manuel Alegre


 Imagem: Skalekar1992, Pixabay


As Mãos


Com mãos se faz a paz se faz a guerra.

Com mãos tudo se faz e se desfaz.

Com mãos se faz o poema - e são de terra.

Com mãos se faz a guerra - e são a paz.


Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.

Não são de pedras estas casas mas

de mãos. E estão no fruto e na palavra

as mãos que são o canto e são as armas.


E cravam-se no Tempo como farpas

as mãos que vês nas coisas transformadas.

Folhas que vão no vento: verdes harpas.


De mãos é cada flor cada cidade.

Ninguém pode vencer estas espadas:

nas tuas mãos começa a liberdade.

                                                            Manuel Alegre


2024-03-12

Autor do mês de março - Manuel Alegre

Imagem: Susanne Nicolin, Pixabay


Raiz


Canto a raiz do espaço na raiz

do tempo. E os passos por andar nos passos

caminhados. Começa o canto onde começo

caminho onde caminhas passo a passo.

E braço a braço meço o espaço dos teus braços:

oitenta e nove mil quilómetros quadrados.

E um país por achar neste país.

                                            Manuel Alegre



Autor do mês de março - Manuel Alegre

Ser ou não ser

Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca                                            
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.


Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.     
                                                





Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.


Até quando? Até quando?




Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.


                                           Manuel Alegre

2024-03-07

Autor do mês de março - Manuel Alegre

Imagem: Gerd Altmann, Pixabay

                    Venho dizer-vos que não tenho medo

                    a verdade é mais forte que as algemas.

                    Venho dizer-vos que não há degredo

                    quando se traz a arma cheia de poemas.


                    Pode ser uma ilha ou uma prisão.

                    Em qualquer parte eu estou presente.

                    Tomo o navio da canção

                    e vou direito ao coração de toda a gente.

                                                                                        Manuel Alegre

2024-02-25

Herberto Helder — O amor em Visita (por José-António Moreira)

Herberto Helder

Imagem: Sorbyphoto, Pixabay


cheirava mal, a morto, até me purificarem pelo fogo,
e alguém pegou nas cinzas e deitou-as na retrete e puxou o autoclismo,
requiescat in pace,
e eu não descanso em paz nas retretes terrestres,
a água puxaram-na talvez para inspirar o epitáfio,
como quem diz:
aqui vai mais um poeta antigo, já defunto, é certo, mas em vernáculo
e tudo, que Deus, ou o equívoco dos peixes, ou a ressaca,
o receba como ambrosia sutilíssima nas profundas dos esgotos,
merda perpétua,
e fique enfim liberto do peso e agrura do seu nome:
vita nuova para este rouxinol dos desvãos do mundo,
passarão a quem aos poucos foi falhando o sopro
até a noite desfazer o canto,
errático canto e errado no coração da garganta,
canto que o traspassava pela metade das músicas
— e ao toque no autoclismo ascendia a golfada de merda enquanto as turvas águas últimas
se misturavam com as águas primeiras

Herberto Helder, Poemas Completos

2024-02-19

"Em silêncio descobri essa cidade no mapa" - Herberto Helder

Imagem: 11417994, Pixabay

Em silêncio descobri essa cidade no mapa

a toda a velocidade: gota

sombria. Descobri as poeiras que batiam

como peixes no sangue.

A toda a velocidade, em silêncio, no mapa –

como se descobre uma letra

de outra cor no meio das folhas,

estremecendo nos ulmos, em silêncio. Gota

sombria num girassol –

essa letra, essa cidade em silêncio,

batendo como sangue.

 

Era a minha cidade ao norte do mapa,

numa velocidade chamada

mundo sombrio. Seus peixes estremeciam

como letras no alto das folhas,

poeiras de outra cor: girassol que se descobre

como uma gota no mundo.

Descobri essa cidade, aplainando tábuas

lentas como rosas vigiadas

pelas letras dos espinhos. Era em silêncio

como uma gota

de seiva lenta numa tábua aplainada.

 

Descobri que tinha asas como uma pêra

que desce. E a essa velocidade

voava para mim aquela cidade do mapa.

Eu batia como os peixes batendo

dentro do sangue – peixes

em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,

aplainando na tábua

todo o meu silêncio. E a seiva

sombria vinha escorrendo do mapa

desse girassol, no mapa

do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo

como as letras nas folhas

de outra cor.

 

Cidade que aperto, batendo as asas – ela –

no ar do mapa. E que aperto

contra quanto, estremecendo em mim com folhas,

escrevo no mundo.

Que aperto com o amor sombrio contra

mim: peixes de grande velocidade,

letra monumental descoberta entre poeiras.

E que eu amo lentamente até ao fim

da tábua por onde escorre

em silêncio aplainado noutra cor:

como uma pêra voando,

um girassol do mundo.

                         

Herberto Helder

 


2024-02-16

Aos Amigos - Herberto Helder

Imagem: VoyZan, Pixabay

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
– Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

                                                                                                                    Herberto Helder, Ofício Cantante

2024-02-15

Sobre um Poema - Herberto Helder

Imagem: Wallace Chuck, Pexels


Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
– a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

– Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
– E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

                                                                                Herberto Helder

2024-01-03

Autor do mês de janeiro - Luís de Sttau Monteiro

Entrevista a Luís de Sttau Monteiro, sobre as obras "Felizmente Há Luar!", "Todos Os Anos Pela Primavera" e "À Noite Cantam as Cigarras".


Imagem: Pexels, Pixabay

2023-11-09

Centenário de Eugénio de Andrade





Urgentemente

É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor, 
É urgente permanecer.

                     Eugénio de Andrade