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2013-05-29

Mia Couto – Prémio Camões 2013

Deslição de Anatomia

Quase fui médico.
Cedo acreditei
ter inclinação.
Aconteceu, em menino,
frente aos compêndios escolares.
Fascinava-me,
no humano corpo,
o vocabulário em flor:
o suco gástrico,
o bolo alimentar,
o trânsito intestinal.
as papilas gustativas.

Ante o meu prematuro pasmo,
a professora vaticinou: vai ser médico!
Em casa porém,
meu pai diagnosticou diverso:
não era a anatomia que atraía.

Eu apenas amava as palavras.

Meu pai adivinhava.
E eu, de poesia, adoecia.

Mia Couto – Prémio Camões 2013

Erro Poético
Sou o açúcar
procurando a formiga.

Meu carreiro
não tem linha.
é um ponto, um planetário grão.

A minha natureza
é uma inacabada caligrafia:
apenas os erros me defendem.

O amor apenas
me rasura a alma.

Com a formiga
partilho alucinogénios:
migas de paixão, migalhas de doçura.

Mia Couto – Prémio Camões 2013

Mia Couto é o vencedor do prémio literário mais importante da criação literária da Língua Portuguesa.
Segundo José Carlos Vasconcelos, um dos jurados, o prémio foi atribuído a Mia Couto tendo em conta a “vasta obra ficcional caracterizada pela inovação estilística e a profunda humanidade”. 
A propósito da obra deste autor, referiu, ainda, que “inicialmente, foi muito valorizada pela criação e inovação verbal, mas tem tido uma cada vez maior solidez na estrutura narrativa e capacidade de transportar para a escrita a oralidade”.